segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Fita com flores


A imagem da manhã do novo dia
emblemática, causa frenesi, singelo apelo.
Evade-se a boçal melancolia;
Ela traz fita com flores no cabelo!

As flores que hoje se abrem no calor,
amanhã padecerão em sarcófago de gelo.
É preciso extrair da vida o ardor;
Ela traz fita com flores no cabelo!

A rubra cor do desenho labial,
a cova que sepulta na pele o segredo,
desenham alma adentro o momento ideal;
Ela traz fita com flores no cabelo!

O sonhar espreita já a realidade,
advindo da fatalidade;
Ela traz fita com flores no cabelo!

A genealogia do desejo é espontânea,
o poeta sonha que seja ela simultânea;
Ela traz fita com flores no cabelo!


Jadiel Tenro 

"Nas palavras meus demônios adormecem. Nas palavras alguns deles até vão embora." 


É catártico. Quebrar pedras, lapidar, é isso; quando se tem a pedra bruta, ancestral, não há ideia do que pode vir a ser; até pode se ter uma longínqua visão, empoeirada, do que se quer obter, mas então, após umas marteladas, estacadas, lixadas, ela vai ganhando a forma da alma. Não é desvalido a arbitrariedade de Saussure - nem tudo tem sentido etmológico - e aí reside a beleza de tudo. 
Jadiel é como João Cabral sim, mas não golpeia as pedras pensando nas jóias que advirão, não o faz "gracilianamente". Talvez até tenha ouvido algum doutor letrado balbuciar a filosofia da composição de Poe em algum contexto pseudo-intelectual "cult" acadêmico, mas não se pauta por tais tagarelices. Para Jadiel as palavras são tumores, são males que não devem ficar; não há glória em escrever, não há significados construídos, só há fotografias da alma. Não há insignificância poética - para ele isso já é contraditório, paradoxo, já que as palavras, por si, filologicamente são insignificantes, são arbitrárias, o que vale é o sentimento, a angústia que carregam como valor absoluto, a recepção que terão no seu destino, é como a chegada de alguém após eras, tudo depende da saudade de quem fica para o reencontro memorável. 
"Escrever é como carregar água com peneira" - definição simples, porém louvável! Escrever é coisa que se faz não pelo fim, mas pelo processo; é arte pela arte, é o despejo do que se sente no fundo da alma sem que se espere a forma. É catártico, apenas para frisar. E se há aridez nas palavras de Jadiel, há também honestidade poética, há coração, mesmo que não tenro. Só não há a plasticidade estética construída por nenhum manual de poesia.  

Jadiel Tenro  

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Aforismos, intimidades e ódio à vida: Jadiel Tenro.

Soa confusa a alusão às paixões da alma - o mesmo ideal carnavalizado de Nietzsche - quando levada em consideração tamanha a aridez oriunda do sertão Pernambucano, vigente e latente ainda nas palavras do poeta Jadiel Tenro (que a propósito de tenro não tem nada). Sem ofensas à Pernambuco, referindo-me apenas a aridez, Jadiel Tenro carrega seus textos com a desumanização apaixonada quase animal (no sentido restrito da palavra) que tão bem retrata sua personalidade; homem de poucas palavras, não pelo humor, mas por não acreditar que elas mesmas possam trazer a honestidade que o olhar facilmente traduz, crente em si mesmo e crente na desgraça que a humanidade arrebanhada, massificada carrega consigo mesmo. Apesar de sua pobre formação acadêmica, Jadiel é lapidador de pedras, como diria João Cabral. Há em seu aspecto bestial (no sentido também restrito da palavra) a necessidade, assim como as bestas, de ruminar seu alimento - as palavras, engoli-las, novamente rumina-las e com toda a amargura de seu desgraçado ser, cuspi-las para que passem a ser ofensas para outros ouvidos que não os de sua pútrida consciência. É o que faz no poema "Ode ao trabalho". O autor ruminante de amarguras ataca a instituição trabalho bem como seria de sua índole; refuta com indulgência a virtude do milagre laboral, rebaixa a boa vontade, do crescimento social que emanam da atividade produtiva e por não ser alguém apto às condutas sociais vocifera, reverberantemente sua insatisfação e inadequação:

"O insustentável repetir dos homogêneos dias"

E seu ódio perpassa a rotina diária e se expande à era em que todos vivem:

"Século Maldito! Metas não plausíveis." 
"Carpe diem! - Bah! - há tempos dissolúvel"

Há de se admitir que toda a "cretinice" do autor - utilizando algo de sua alcunha - é aliviada pela magnifica construção, posição das palavras e elementos fônicos que divertem os ouvidos, porém suas manifestações anarquistas ainda o prendem às prateleiras empoeiradas da insignificância poética. 

Trujillo Sonnel

     

AFORISMOS DE MINHA INTIMIDADE



Inquietante é a dominação da mente sobre a alma; aquela mascara o que não quer ver, esta adormece sem saber.



Explode!...



Caem as barreiras e Psique, como o pastor que bane com os braços em desesperado afã de conter o rebanho de ovelhas acometidas pelo lobo - faminto e sedento de sangue e caos, se vê nulo, zero - NIHIL - Ah! Oh estouro de mim mesmo! De onde vem essas amarras? De quando as paixões da alma foram feitas devassas? Há de ser a chuva de percepções além-sentidos a libertadora do que os hiperbóreos devem ser? Seremos então os hiperbóreos dentro da casca falível, feia, obtusa, de seres desapaixonados? E que mal há no despertar?



Arbitrariedades! Já basta!

Em algum ponto, algum ignóbil pensou que vãs palavras haveriam de definir, expressar, desenhar e colorir o inesgotável e profundo senso que há em nós.


Arbitrariedades! Já basta!

Em cada um há um universo grandioso e supremo - Olímpico. Por que o massacre ancestral do deus que é individual? As amarras dogmáticas esganam ao invés de amparar! Morfeu, só há refúgio em seu reino! 
Grito! Brado! Ânsia de não ser somente isso.
Grito: - Bravo! Aplausos à inverdades e desatinos!
Grite! Pulse! És a gema fecunda! 
Pulse! Brade! És a vida fecundada! 
O animal que busca a caça ofega; assiste: enumera possibilidades.
Assume, em riste: espreita a roda da fortuna.
Ouve! Suga da lógica dados tristes!
Tudo culmina no apogeu da perfeição onipotente - não há nada humano, nada do que foi criado; cunhado
- VIDA! é a sagração do que há interno.
- VIDA! é o instinto latente.
- VIDA! sem controle e amarras.


- SOU.




Jadiel Tenro








quarta-feira, 27 de setembro de 2017

ODE AO TRABALHO

Náuseas psicodélicas atacam meu ego
O insustentável repetir dos homogêneos dias,
No insulto da rotina faço-me cego;
Vilipêndios burocráticos e suas heresias.

Liberdade utópica inexiste na alienação,
Crueldade retórica sob cunho de motivação.
Século Maldito! Metas não plausíveis.
Verdades pós-criadas de notícias inaudíveis.

Carpe diem! - Bah! - há tempos dissolúvel.
Síndromes consomem o saudoso "bom selvagem"
Dogmas mascaram paraíso em vassalagem.
Cretinice e controle ocupando o mesmo núcleo.

Embotado na garganta o brado não heróico
há de expurgar a melancólica fadiga.
Apenas a coragem de bradar dilui a rima,
e com toda a energia retumba o FODA-SE estóico. 


Jadiel Tenro

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Semana ganha.

Li algo que realmente valeu a pena esta semana. É engraçado como, por vezes, me detenho em leituras pseudo-intelectuais etcs e tals e nada depreendo daquilo. Então....esta semana veio até minhas mãos um dos textos mais fantásticos que já li...tapa na cara, estalado. E sabe o que mais? De uma aluna que vi crescer, uma garota fantástica (eu já podia até esperar isso dela), mas o que mais me impressionou foi enxergar no papel emoções e sentimentos de uma maneira tão clara e óbvia que até parece ser o papel o interior daquele que o usou. É como se alguém, de maneira majestosa, tivesse sintetizado o amor, desejo, medo, etc, em palavras. Simples assim. Profundo assim. Honesto assim.
Sabe, o que mais vale a pena em ser professor de alunos brilhantes não é nem o fato de saber que eles vão crescer (no amplo sentido da palavra), mas é ver que eles vão te surpreender e te ensinar algo tão sublime quanto o que você os ensinou, ou talvez até mais.
Parabéns Bia. Continue ousando sempre. Mesmo com margens não há limites para o que se possa fazer com as palavras.

sábado, 30 de abril de 2011

Lua Adversa


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...